7º Piquenique Literário: Memórias da Casa dos Mortos – Fiódor Dostoiévski

No último final de semana, chegamos ao sétimo Piquenique Literário e, desta vez, a obra escolhida para o debate foi Memórias da Casa dos Mortos (ou, em algumas traduções, Recordações da Casa dos Mortos), escrita por Fiódor Dostoiévski. O livro, considerado um dos maiores clássicos da literatura russa, proporcionou aos participantes do encontro mais um debate em que foram levantadas diversas questões, como: a diferença de classes que existia dentro do cárcere, a falta de humanidade, a tirania de quem detinha o poder e, é claro, a busca pela liberdade.

O autor da obra, Fiódor Dostoiévski, foi detido em 1849 por motivos políticos, perdendo seus direitos civis e condenado a trabalhos forçados por duradouros quatro anos. O escritor russo ficou recluso na chamada “Casa dos mortos” (que dá título à obra), presídio localizado na Sibéria, onde, naquela época, eram mantidos os criminosos mais temíveis da Rússia. Foi nesse local que Fiódor conheceu a degradação humana em todas as suas nuanças horripilantes.

Memórias da Casa dos Mortos é o resultado dessas experiências pessoais. Dessa forma, Fiódor apresenta no livro um sutil paralelo entre a sua história pessoal e a de tantas outras vítimas da cadeia russa.

O livro

Confesso que a narrativa presente no livro Memórias da Casa dos Mortos não é das mais fáceis de acompanhar. Os parágrafos são demasiadamente extensos, o autor faz uso de palavras que não são tão comuns em nosso vocabulário, além de apresentar dezenas de nomes de cidades e de personagens que dão um nó na língua quando tentamos pronunciá-los.

Durante a leitura, o leitor pode sentir uma constante sensação de cansaço e de mesmice (talvez muito semelhante à experiência pessoal vivida pelo autor do livro dentro da Casa dos mortos) e, por diversas vezes, se perguntar: onde Dostoiévski quer chegar com essa história?

Assim, para ler o livro será necessária uma boa dose de determinação e não deixar se abater pela escrita um pouco “arrastada”. Contudo, acredito que para ler e compreender a mensagem transmitida ao longo dessa narrativa é preciso enxergar muito além das entrelinhas.

Apesar desses aspectos, a publicação é interessante por apresentar ao leitor um relato pessoal e as observações do autor sobre o comportamento humano. Vale ressaltar que, dentro de qualquer presídio, os detentos são obrigados a ser portar de acordo com as regras do local e a usar vestimentas e corte de cabelos (no caso dos homens) exatamente iguais, perdendo sua própria identidade; contudo, nesta obra, Fiódor se preocupa em construir cada personagem de forma bastante detalhada, ressaltando os traços de personalidade de cada indivíduo e evidenciando que, mesmo dentro do cárcere, os presidiários são tão humanos como quem vive fora dele.

Conhecer o que se passa na Casa dos mortos também é entender um pouco da história da construção da Rússia. O livro apresenta ao leitor diversas referências históricas da época, além de muitos detalhes da experiência de Dostoiévski.

Durante a leitura, eu senti muita indignação devido à falta de humanidade presente na Casa dos mortos, passando pelos maus-tratos contra os seres humanos e os animais, a alimentação e as condições de higiene precárias, bem como a escassa infraestrutura das instalações das casernas e do hospital.

No livro, dois pontos chamaram muito a minha atenção por apresentar fatos que são muito comuns no nosso dia a dia, mas de difícil acesso aos “moradores” da Casa dos mortos. Um é o relato que o autor faz de um banho coletivo, momento no qual cerca de 80 detentos se amontoam para conseguir se limpar em uma espécie de sauna. E o outro aspecto, como eu já mencionei, é a falta de humanidade que há no local. Por que, uma vez condenados, os detentos precisavam, novamente, passar por castigos, como os açoitamentos? Para te ajudar a responder e a refletir sobre essa pergunta, deixo aqui um dos trechos do livro:

Numa palavra, o direito de aplicar castigos corporais, dado a um homem em relação aos outros, é uma das úlceras sociais, é um dos meios mais potentes de eliminar daquele homem todo embrião de civilidade e qualquer tentativa de ser cidadão, é uma base sólida de sua degradação inevitável e irreprimível.

Ao concluir a leitura é possível sentir um pouco do gostinho da liberdade experimentada pelo protagonista, já que de certa forma o leitor também deixa para trás a triste vivência da Casa dos mortos.

O livro apresenta personagens fictícios, como Alexandr Petrovitch, que é uma alusão ao próprio Fiódor Dostoiévski. Contudo, os fatos apresentados fazem parte de uma experiência real de Fiódor e, por isso, a história incomoda e causa muita indignação.

Por fim, gostaria de deixar registrado que, mais uma vez, o Piquenique Literário cumpriu seu papel de apresentar uma obra ainda pouco conhecida do público e que provoca uma grande discussão.

Mineiro, jornalista, escorpiano, leitor de boas histórias, amante de práticas saudáveis, apaixonado pela natureza e por boas vibrações.

3 Comment

  1. Como já disse anteriormente, ótimo post! É muito legal a experiência de participar do piquenique e depois ver as impressões discutidas numa publicação!

    1. Olá, Vanessa!
      Fico feliz que tenha gostado.
      O Piquenique Literário é uma experiência animadora. 🙂

  2. Muito bacana essa reflexão… Sou fã do Dostoiévsky… acredito ter lido todos os livros dele. O meu preferido é Niétotchka Niezvânova…. ele iniciou antes da prisão na Sibéria e finalizou pouco antes de sair de lá, ou seja, dez anos depois.

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