O Conto da Aia – Margaret Atwood

Ultimamente, muito tem se falado sobre o romance da autora canadense Margaret Atwood, O Conto da Aia. A publicação foi escrita em 1985 e voltou aos holofotes devido ao lançamento de uma série homônima inspirada na obra, e pelos acontecimentos políticos que marcam a história atual dos Estados Unidos da América, como a eleição de Trump. Por causa desses fatores, a publicação ganhou uma nova edição, voltou a figurar na lista de livros mais vendidos de dezenas de livrarias e é, ainda, tema de inúmeros debates e de reportagens para os meios de comunicação em todo o mundo.

Diante de tamanha repercussão e antes de mais nada, reforço que resenhar um livro nem sempre é muito fácil e é algo bastante pessoal, já que cada leitor tem suas próprias impressões e experiências a partir da obra que foi lida. Eu, particularmente, após terminar a leitura do O Conto da Aia, coloquei o livro na minha lista de favoritos e considero uma das obras mais interessantes que eu li em 2017.

A história

O romance é uma distopia que se passa em um futuro muito próximo e tem como cenário a república de Gilead, onde hoje localizam-se os Estados Unidos. O livro traz uma temática bastante polêmica, abordando em suas páginas a realidade de uma sociedade em que não há mais os meios de comunicação, as universidades e os advogados, já que seus habitantes não têm direito à informação, à educação e à defesa – não necessariamente nessa ordem.

Dessa forma, para controlar seu povo e mostrar o poder do regime (no livro não é apontado de forma clara quem são os governantes desse sistema), os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e seus corpos são pendurados com um saco na cabeça em um muro, servindo de exemplo e de alerta ao restante da sociedade. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas mais afetadas e, por consequência, perdem todos os seus direitos, sendo divididas em castas de acordo com funções pré-estabelecidas.

E é nesse contexto que encontramos a personagem principal da trama, Offred (ou “do Fred”, mostrando que ela, assim como algumas outras mulheres, pertencem a um Comandante). A personagem é uma aia, o que significa que ela é propriedade do governo e tem a função quase que exclusiva de procriar.

Eu tinha outro nome, mas ele é proibido agora.

Mas, além dessas, há outras mulheres que não podem gerar filhos e são designadas a outras funções, sendo que algumas são chamadas de Não Mulheres, como se elas fossem deserdadas do atual regime.

No começo da história, o livro pode ser um tanto quanto confuso, já que não há uma explicação inicial dos fatos que levaram à criação da república de Gilead e, além disso, a história pode até ser encarada como algo totalmente improvável, o que pode não agradar muitos leitores. Mas acredito que o romance escrito por Margaret é uma história de especulações e de suposições, sendo possível trazer para o nosso cotidiano atual diversos dos assuntos abordados na ficção.

A narradora do livro, Offred, não poupa os mínimos detalhes ao contar sua história. E, por isso, a leitura pode soar um pouco arrastada e cansativa – confesso que eu mesmo estava com essa impressão. Contudo, reforço que o final da história é realmente recompensador e acredito que esse detalhamento das informações é necessário para a construção da personagem e da realidade que ela vivencia.

Embora os primeiros capítulos sejam um pouco maçantes, a história de Offred – mais precisamente no meio do livro – ganha explicações mais concretas sobre como surgiu a república de Gilead, o que, por fim, ajuda o leitor a entender os fatos apresentados e até mesmo a divisão de castas. Por vezes, a narrativa chega a causar raiva, nojo e repulsa, tamanha é a crueldade psicológica sobre as personagens centrais da história.

O conto da aia é um livro que aborda a temática do feminismo, já que, na república de Gilead, as aias são tratadas como verdadeiros objetos sexuais. A obra também fala sobre um regime político totalitário e sobre o fanatismo religioso, fatores que certamente contribuíram para que fosse instalada a república de Gilead e que são utilizados para controlar, ainda que de modo velado, os cidadãos dessa sociedade.

Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns.

Acredito que a obra é um convite à reflexão sobre o papel da mulher e da maneira como ela é tratada tanto pelos homens, como por outras mulheres em nossa sociedade real!

Como o livro é de especulações, deixo aqui uma dica: se, ao terminar a história, você ainda não souber dizer se gostou ou não, procure na internet matérias e resenhas sobre a publicação (há dezenas delas!), e talvez isso te ajude a compreender melhor o drama. Felizmente, esse foi o livro escolhido para ser debatido no último encontro do Piquenique Literário (um evento que nós organizamos mensalmente em São José dos Campos).

E foi durante o piquenique que eu pude conhecer melhor as impressões de outros leitores, percebendo que o final da obra também pode ou não agradar o leitor. Porém, eu, particularmente, aprovei a conclusão dos acontecimentos apresentados, que geram debates intensos entre quem leu O conto da aia.

A história narrada por Offred te deixa atordoado, justamente por apresentar fatos, mesmo que de forma ficcional, que fazem parte do nosso dia a dia. Mas, para os mais positivistas, ela pode ser encarada como um grito de esperança!

A série

Em abril deste ano, o serviço streaming Hulu lançou a série The Handmaid’s Tale, que foi inspirada no livro – eu vi apenas o primeiro episódio pela internet. A série, apesar de contar com algumas adaptações, já que tratamos de mídias diferentes, parece explicar melhor os fatos, que se tornam ainda mais “sufocantes”. Pelo pouco que vi, acredito que a série fará um enorme sucesso quando chegar oficialmente ao Brasil – rumores dão conta de que o canal pago Fox Premium irá adquirir os direitos de exibição da produção no nosso país.

No elenco da série estão Elizabeth Moss (Mad Men), que dá vida à Offred, Samira Wiley (Orange de New Black), Yvonne Strahovski (Chuck) e Joseph Fiennes (Shakespeare Apaixonado). A temporada conta com 10 episódios e em breve uma segunda temporada.

Vejam o trailer legendado em português. E, se possível, leiam e assistam O conto da aia!

Mineiro, jornalista, escorpiano, leitor de boas histórias, amante de práticas saudáveis, apaixonado pela natureza e por boas vibrações.

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