Outros jeitos de usar a boca – Rupi Kaur

se você nasceu com
fraqueza para cair
você nasceu com
força para levantar

Eu já disse em outro post que não sou/não era fã de poesia, mas que estou tentando me aventurar pelo gênero no intuito de conhecê-lo melhor. Um belo dia, uma amiga trouxe Outros jeitos de usar a boca para o trabalho. Todo mundo queria o livro emprestado, teve que rolar até uma fila de espera. Então eu decidi não ficar de fora e o pedi emprestado também. Embora o falatório em torno da obra fosse grande, eu não criei nenhuma expectativa sobre ela. Isso foi ótimo, porque me permitiu aproveitar a leitura sem nenhuma influência do que vinham dizendo a respeito.

O livro apresenta textos sobre a condição de ser mulher hoje em dia, percorrendo temas como abuso, violência e relacionamento. Na obra, esses assuntos estão divididos em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Logo de início, as palavras de Rupi me incomodaram muito e eu achei, erroneamente, que não estava gostando do conteúdo. Então, as poesias se tornaram um pouco mais suaves… e voltaram a doer. No decorrer da leitura, percebi que o que eu estava sentindo, na verdade, eram todas as emoções colocadas no livro. Há momentos de fechar a garganta e momentos de se sentir acolhida; é como uma montanha-russa.

Dois pontos da obra me chamaram a atenção: primeiro, a universalidade das poesias. Fica claro que muitos textos partem de experiências pessoais da autora. Inclusive, em seu site, ela conta que venceu a primeira batalha de sua vida ao nascer, já que, em algumas culturas indianas, é comum a prática do feticídio de meninas (aborto de fetos apenas por serem do sexo feminino). Portanto, suas palavras revelam alguns obstáculos pelos quais ela teve que passar e como ela os superou. No entanto, Rupi consegue falar como toda mulher, escrevendo sobre situações que todas nós passamos ou vamos passar e todos os desafios, inseguranças e sentimentos que elas envolvem. Arrisco dizer que é possível se identificar com todas as poesias do livro.

você precisa começar um relacionamento
consigo mesma
antes de mais ninguém

O segundo ponto e o que mais me encantou foi a forma como a autora exalta o amor-próprio e, por isso, a parte da “cura” é a minha preferida. Se, até então, Rupi falava de relacionamentos tóxicos – seja de pai para filha, de homem para mulher ou de mulher para mulher – nessa parte ela traz relatos de coragem e superação. A autora mostra, de modo ao mesmo tempo cru e sutil, que precisamos nos amar para sermos capazes de amar, verdadeiramente, o outro.

Sei que, quando se fala em poesia, normalmente pensamos (ou eu penso) em uma linguagem rebuscada, mas isso não se aplica a esse livro. As palavras são simples e tornam a leitura muito fácil. A obra pode ser lida em poucas horas, mas eu aconselho apreciá-la sem pressa… até porque é necessário tempo para digerir alguns textos. E vale ressaltar que a publicação é recomendada para tod@s – aliás, acho que deveria ser leitura obrigatória para os homens. Fica a dica!

Outros detalhes…

Esse livro foi lançado de forma independente em 2014 e logo se tornou um fenômeno literário. A obra ficou mais de 40 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, ultrapassando a marca de 1 milhão de exemplares impressos, um número muito expressivo para um livro de poesias. No Brasil, ele foi publicado pela Editora Planeta no início deste ano.

O título original da obra é Milk and Honey (em português, “Leite e Mel”) e remete ao genocídio do povo Sikh, do qual Rupi Kaur e sua família fazem parte, que ocorreu em 1984. Em um dos versos sobre as mulheres dessa etnia, a autora diz que elas se tornaram “suaves como o leite, mas fortes como o mel”. Em seu site, ela explica que leite e mel sempre foram usados por sua comunidade como ingredientes curativos, capazes de reparar o interior do corpo.

Rupi  nasceu em Punjab, na Índia, mas emigrou para o Canadá ainda criança. Quando chegou ao novo país, ela não conseguia falar em inglês com outras crianças, o que a obrigou a passar muito tempo sozinha, levando-a a desenhar, o que também é um hobby de sua mãe. Por isso, suas poesias são acompanhadas de desenhos minimalistas e muito expressivos. Seus versos também trazem uma sutil homenagem à sua origem: os textos são escritos apenas com letras minúsculas e não são usados símbolos de pontuação além do ponto final – uma herança de sua língua materna.

como você ama a si mesma é
como você ensina todo mundo
a te amar

E vem mais livro por aí! Mês passado, Rupi anunciou que sua segunda obra, The Sun and Her Flowers, será lançada no dia 3 de outubro. Aguardamos ansiosamente a data de lançamento no Brasil!

 

Taurina, jornalista, casada com o Xu e mãe de um poodle preto chamado Bruce (Wayne). Poderia viver eternamente de doces e livros.

5 Comment

  1. Este livro é um ótimo exercício de empatia para os homens.

    1. Assino embaixo! E obrigada pelo comentário, Henrique 🙂

  2. Nossa Tha! Eu achava que esse livro era tão diferente. Fiquei com muita vontade de ler agora. Preciso ver esse livro por dentro. Vou procurar assim que for na Saraiva de novo.hehe
    Beijos ♡
    Resenhando por Marina

    1. Oi, Má!
      Sim, eu também resisti por um tempo, imaginando outra coisa… foi uma surpresa muito positiva! Ainda quero comprar meu exemplar, porque acho que vale a pena. Recomendo que vc procure sim 🙂 Obrigada pela visita!

  3. Tem muita gente falando dessa livro ultimamente, também não sou super fã de poesia mas a sua resenha e os trechos que postou me deixaram bem curiosa. Vai entrar pra meta desse ano! Beijãoo

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