Piquenique Literário: Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

Eu passei a semana toda tentando convencer São Pedro a não fazer chover no domingo, dia do Piquenique Literário. Eis que acordo e a chuva está lá, assim como o frio. Pelo menos ele só mandou uma garoa. Ainda assim, saí de casa conformada de que menos pessoas participariam dessa vez, afinal, quem tem coragem de sair da cama no domingo de manhã, com chuva e frio, para um encontro em um parque todo aberto? O resultado:

Um total de 37 pessoas – nem dá pra ver todo mundo na foto!

Dos 37 presentes no 4º Piquenique Literário, 12 estavam participando pela primeira vez. E que delícia ouvir deles que adoraram e que pretendem ir mais vezes! 🙂

Para o encontro de maio, a ideia foi ler uma obra africana. Como de costume, eu e o Bruno selecionamos três opções para a votação presencial, com a preocupação de escolher livros de diferentes países da África. Os candidatos foram: O último voo do flamingo, de Mia Couto (Moçambique); Mayombe, de Pepetela (Angola); e Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozie Adichie (Nigéria) – o vencedor.

“Hibisco Roxo” de capa nova na edição mais recente da Companhia das Letras.
A história

O livro é narrado por Kambili, uma adolescente de 15 anos que vem de uma família muito bem-sucedida financeiramente. Ela vive com o pai Eugene (a quem chama de Papa), a mãe Beatrice (chamada de Mama) e o irmão mais velho (conhecido como Jaja) na cidade de Enugu, na Nigéria.

Papa é dono de várias empresas, entre elas um jornal progressista que, mesmo sob ameaças, não deixa de publicar críticas ao governo quando o país sofre um golpe de Estado.

Contudo, é um católico extremista que não aceita as tradições primitivas do povo nigeriano. Sua intolerância religiosa é tanta que ele rejeita o próprio pai, avô de Kambili, por considerá-lo pagão, e pune a família com castigos severos sempre que eles supostamente desrespeitam as leis da sua religião.

Por outro lado, apesar de ser violento e opressor, Eugene é visto como o benfeitor dos pobres, pois ajuda a sua comidade e a igreja que frequenta com recursos financeiros.

Papa tem uma irmã, a tia Ifeoma, uma professora universitária que é viúva e mãe de três filhos: Chima, Obiora e Amaka. Eles moram na cidade de Nsukka, onde vivem em condições muito precárias.

Diferentemente da família de Kambili, na qual apenas o pai tem voz e tanto os filhos quanto a esposa devem seguir à risca as regras impostas por ele, na casa de Ifeoma o que impera é a liberdade e o respeito. Por isso, toda a vida da protagonista muda quando ela e o irmão passam alguns dias com os primos e a tia em Nsukka, abrindo seus horizontes para novos valores e novos caminhos. É também nesse período que Kambili conhece o padre Amadi, sua primeira paixão.

A discussão

Mais uma vez, o Piquenique Literário me fez enxergar o livro com outros olhos. É impossível, porém, transmitir neste texto tudo o que foi discutido, inclusive por motivos de: spoilers. Mas é possível levantar algumas questões, que poderão fazer mais sentido para quem já leu a obra.

Ao contar a história de Kambili, a autora também nos apresenta um retrato da Nigéria atual e as influências da colonização britânica no país. Nesse contexto, passamos a entender muitas das atitudes do Papa – sua devoção a uma religiosidade “branca” ao valorizar o padre britânico de sua igreja em detrimento dos padres nascidos em sua própria comunidade ou sua necessidade de falar inglês em vez de igbo, a língua nativa de Enugu, por exemplo.

Esse personagem, aliás, foi o que mais dividiu opiniões – e sentimentos – durante o encontro. Uns sentiram raiva por suas atitudes extremamente violentas; outros sentiram pena por levar em conta que ele teve uma criação semelhante à que passava aos filhos. De todo modo, fica claro que Papa realmente acreditava estar agindo da forma correta.

Outra personagem que gerou discussão foi Mama. Na minha opinião, sua “passividade” em relação à Papa é um retrato do comportamento de milhares de outras mulheres diante de um relacionamento abusivo física e psicologicamente. Muitas não abandonam seu agressor por medo, por enxergar nele estabilidade ou proteção, em geral financeira, e até por causa da opinião alheia – Mama pode ter se agarrado a qualquer um desses motivos. Contudo, para muitos participantes, ela tinha saída e escolheu um caminho egoísta.

Até mesmo o final do livro causou divergências: para alguns, representou um recomeço, um sinal de esperança para uma família que passou por tantas desventuras; para outros, a autora se perdeu ao amarrar a história.

A unanimidade ficou por conta de tia Ifeoma e seus filhos, sobretudo Obiora e Amaka, pessoas críticas, justas e corajosas. Com esses pensamentos e atitudes, eles influenciaram e transformaram, ainda que de maneira indireta, a vida de Kambili e Jaja.

Por todos esses pontos de vista diversos é que o encontro foi tão rico! Hibisco Roxo vale a pena ser lido porque apresenta muitos aspectos históricos e sociais que nos permitem entender uma sociedade e uma cultura diferente da nossa. Além disso, Chimamanda consegue descrever situações difíceis de forma leve e até poética, tornando a leitura muito fácil e prazerosa. Esse foi o segundo livro da autora que li (o primeiro foi Sejamos todos feministas), mas fiquei muito interessada em suas outras obras, em especial a mais recente, Americanah, que os participantes do piquenique elogiaram bastante!

O piquenique

Depois da discussão, ainda rolou um quiz, que rendeu muitas risadas. Eu e o Bruno elaboramos algumas perguntas sobre a obra e colocamos em um saquinho, que passou de mão em mão.

O participante retirava uma questão (aberta, sem alternativas), lia e respondia. Quem errasse, era eliminado; quem acertasse, continuava no jogo. A grande vencedora, Carla Orru, ganhou um vale livro!

A ganhadora do quiz, Carla, e sua filha Ana.

No próximo mês leremos uma biografia. Como bons jornalistas, eu e o Bruno gostamos muito desse gênero e de histórias baseadas em fatos reais. Por isso, tivemos muita dificuldade em selecionar apenas três livros para a votação: acabamos levando cinco!

Os candidatos foram: O Diário de Anne Frank; Olga, de Fernando Morais; Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus; 12 anos de escravidão, de Solomon Northup; e Para poder viver, de Yeonmi Park. Este último foi o mais votado pelo público presente.

Jacqueline votando entre os livros selecionados para o próximo piquenique.

O próximo encontro já tem data marcada: 25/06, às 9h, no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Vai rolar um café junino! Todas as informações sobre o Piquenique Literário estão nesse grupo: https://www.facebook.com/groups/568458836683714/

Livro do próximo encontro.

Se você é de São José dos Campos ou região, é só chegar! Será muito bem-vindo! 🙂

Taurina, jornalista, casada com o Xu e mãe de um poodle preto chamado Bruce (Wayne). Poderia viver eternamente de doces e livros.

2 Comment

  1. Que delícia esse encontro!
    E confesso que já tinha visto esse livro por aí, mas não me interessei. Lendo sobre a experiência de vocês, já me abre outra visão (apesar de que eu não tinha visão nenhuma, porque eu nem a sinopse conhecia! = s ). Enfim, surgindo oportunidade, irei ler, com certeza!
    Parabéns por essa iniciativa!

    Beijinhos!
    http://luardelivros.blogspot.com/

    1. Rê, obrigada pelo comentário!
      Os encontros tem sido maravilhosos mesmo! Já estamos indo pro 5º! Se tiver algum clube de leitura pela sua cidade, recomendo a participação rs Eu sempre saio diferente das discussões.
      O livro é ótimo, viu?! Se tiver oportunidade, leia sim! Descobri muito sobre a Nigéria com essa história e o que seria ler se não viajar para outros lugares, inclusive os reais, não é mesmo?
      Vou dar uma passadinha no seu blog também 🙂
      Bjo bjo 🙂

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