Piquenique Literário: Presos que menstruam – Nana Queiroz

Em março, decidimos ler uma obra nacional para o Piquenique Literário. Como sempre, votamos entre três opções: O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza; Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva; e Presos que menstruam, de Nana Queiroz.

Este foi o escolhido pela maioria. Trata-se de um livro-reportagem sobre a situação das mulheres nas penitenciárias femininas brasileiras, abordando assuntos como higiene e infraestrutura da cadeia, relacionamento entre as detentas, sexualidade, maternidade, entre outros.

A autora Nana Queiroz, que é jornalista, nos apresenta sete protagonistas, revelando desde os motivos que as levaram ao cárcere até sua história na prisão. A trajetória de cada uma é dividida em capítulos, que são intercalados. Há até um índice por personagem, para facilitar a leitura de quem, por ventura, fique atrapalhado com a forma como o livro foi construído. E entre uma detenta e outra, a autora ainda relata o cotidiano de voluntárias e funcionários do sistema prisional, como carcereiros e diretoras.

Ficção x realidade

Embora trate de um assunto denso, o livro traz uma narrativa leve e fluida. A jornalista conta que muito do que ela descreve no livro foi baseado em sua memória, porque ela não pôde entrar nas penitenciárias com gravador, por exemplo. Por vezes, as histórias parecem até terem sido romanceadas…

Pensando nisso – e no fato de que nos últimos dois encontros discutimos personagens, já que lemos livros de ficção (O Sol é para todos e Senhor das moscas) – resolvi levar um exemplo vivo do que é relatado na obra. Assim, depois de muita busca ao longo de um mês, encontrei a nossa convidada, uma ex-detenta que viveu durante 11 meses em regime fechado.

Mara mora em um assentamento da reforma agrária em São José dos Campos. Por isso, me comunicar com ela antes do piquenique foi difícil. Não contei para o grupo de leitores que a levaria no dia do encontro porque ainda tinha receio de que surgisse um imprevisto que a impedisse de ir ou que, próximo à data, eu não conseguisse mais falar com ela. Contudo, o tempo todo, a Mara se mostrou disposta e interessada em participar.

Dito e feito: no dia e horário, ela estava lá. Não esqueço os olhares das pessoas quando eu revelei minha “surpresa”. Também não esqueço os aplausos… tanto quando eu apresentei a Mara, como quando ela terminou sua primeira fala sobre a prisão, tão verdadeira e consciente.

Mara é uma pessoa muito crítica e bem-humorada. Disse que há mulheres lindas encarceradas e que fez grandes amigas na prisão. O mais interessante de tudo isso é que ela não teve tempo de ler o livro, mas descreveu as condições e a rotina do cárcere exatamente como a Nana nos conta na obra.

Mara nos disse que, de fato, a maioria das mulheres comete crimes que possam complementar sua renda, como roubo e tráfico de drogas. Reforçou que o convívio entre as detentas não é fácil porque, enquanto os homens se unem, elas se veem como rivais. Isso se reflete até mesmo na relação policial: as carcereiras mulheres são mais grosseiras e até violentas com as presas do que os carcereiros homens.

Contudo, por outro lado, a carência faz com que as mulheres passem até mesmo a se relacionar amorosamente dentro da cadeia, já que os homens as abandonam quando são presas. Por isso, pouquíssimas recebem visitas. E muitas ficam meses sem ver os filhos, como aconteceu com a própria Mara. Ela ainda lembrou de uma mulher que estava grávida na prisão, mas não pôde ficar com o filho quando nasceu.

Sobre infraestrutura, ela confirmou que é muito precária. Assim como é relatado no livro, não há sanitários, apenas um buraco no chão. Apesar disso, as detentas mantém tudo muito limpo e organizado.

Quando começamos a falar sobre ressocialização, ela riu. “Existe até uma cartilha de ressocialização, é linda, mas não funciona”, disse. Mara afirma que o sistema prisional parece preparar as pessoas para retornar ao cárcere. Os psicólogos e assistentes sociais que trabalham na prisão, por exemplo, são todos voluntários, e não fornecidos pelo Estado. Além disso, não há qualquer tipo de auxílio para que, depois de livres, as mulheres consigam se reinserir no mercado de trabalho. Por isso, um fato espantoso que é descrito no livro acontece na vida real: as mulheres se sentem mais seguras encarceradas do que em sociedade. Assim, chegam a pedir para voltar à prisão ou cometem crimes para serem presas novamente.

Essas são apenas algumas das experiências que Mara compartilhou com a gente. Fiquei imensamente feliz em ver o quanto os participantes do piquenique foram receptivos e respeitosos com ela. E como, juntos, estamos aprendendo, a cada encontro, a compreender o nosso mundo e nos tornarmos mais humanos. Afinal, acho que é disso que precisamos.

A prisão é um lugar muito triste porque não tem três coisas: crianças, animais e flores.
– Mara.

Taurina, jornalista, casada com o Xu e mãe de um poodle preto chamado Bruce (Wayne). Poderia viver eternamente de doces e livros.

Deixe uma resposta