Piquenique Literário: Senhor das moscas – William Golding

Talvez, disse ele, hesitante, talvez exista um monstro.

Eu queria dizer que… pode ser só a gente.

– Simon.

Esse foi o livro escolhido para o segundo Piquenique Literário. Senhor das moscas é um clássico, foi adaptado duas vezes para o cinema e seu autor, William Golding, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1983. Só esses motivos já seriam suficientes para ler a obra r-i-g-h-t n-o-w! Mas eu vou citar mais alguns ao longo dessa resenha.

A história se passa no contexto da Segunda Guerra Mundial. Um avião com apenas o piloto e um grupo de meninos ingleses em idade escolar cai em uma ilha deserta. O piloto morre e, milagrosamente, as crianças sobrevivem sem um arranhão.

Logo, elas precisam se organizar para sobreviver. Os primeiros meninos que o autor nos apresenta são Ralph e Porquinho – seu verdadeiro nome não é revelado. Porquinho, que, apesar de ingênuo, é muito inteligente, encontra uma concha e tem a ideia de soprá-la para chamar as outras crianças. Ralph sopra e, como esperado, vários meninos aparecem, entre eles um coro uniformizado, liderado por Jack.

Nessa reunião, as crianças votam em Ralph para ser o líder do grupo. Sua primeira decisão é fazer uma fogueira para que a fumaça atraia um navio e, assim, eles sejam resgatados. Para fazer o fogo, os meninos usam os óculos de Porquinho. Na maior parte do tempo, os gêmeos Sam e Eric ficam responsáveis por manter a fogueira acesa.

A turma de Jack se torna responsável pela caça de porcos selvagens que habitam a ilha. Logo, Jack se revela um menino autoritário e, por ser capaz de prover alimento, muitas crianças decidem integrar seu grupo, fazendo com que, aos poucos, Ralph perca seu poder de liderança.

As crianças, especialmente as mais novas, passam a sentir medo de um bicho que eles acreditam que viva na ilha. Por isso, quando matam o primeiro porco, os caçadores decidem deixar a cabeça do animal presa a uma estaca como oferenda para esse bicho desconhecido. Uma das passagens mais importantes  do livro revela uma conversa que um dos meninos, Simon, tem com essa cabeça de porco, que representaria o “senhor das moscas“.

Esse poderia ser o enredo de um filme da sessão da tarde, certo?! Totalmente errado! Embora pareça ser apenas a história de meninos perdidos em uma ilha, esse livro, na verdade, apresenta uma das mais expressivas discussões sobre a natureza humana. O que vemos é a transformação de crianças ordenadas em meninos selvagens, o que revela a essência da obra: o conflito civilização x selvageria. Com essa história, Golding escancara uma verdade cruel: o mal existe em todo e cada ser humano desse mundo.

O livro é cheio de simbologias, por isso é importante estar atento a elas durante a leitura. Perceberam que eu destaquei vários elementos em negrito? Pois bem, cada um deles tem um significado.

Ralph simboliza a ordem, a sociedade civilizada e, sobretudo, a democracia, já que é escolhido como líder pela maioria e está sempre preocupado em ouvir a opinião de todos.

Jack é o oposto de Ralph, portanto representa a selvageria, o caos, a barbárie e o autoritarismo.

Porquinho simboliza a inteligência, o conhecimento e a razão. Ele também representa a ciência, uma vez que age pela lógica e é subestimado, mas se mostra muito importante e necessário.

Os gêmeos, Sam e Eric, representam a massa que tende a não pensar por si própria, mas seguir o líder mais forte. Por isso, eles transitam entre o grupo de Ralph e o de Jack, seguindo quem demonstra maior poder e autoridade.

Simon, eu diria, é a única criança que não demonstra carregar o mal dentro de si. Por isso, para mim, ele também representa a bondade. Ele também representa o misticismo, a religião e a fé.

A concha, além de ser usada para convocar os meninos, dá o direito da fala para quem a segura. Assim, ela é o símbolo da democracia e do respeito pela lei e pela ordem. Mas ela perde seu poder a medida que os garotos vão se tornando mais selvagens. Quando ela é quebrada, há o rompimento total com a civilização e a instauração completa da barbárie.

A fogueira é presente em toda a história e tem, sobretudo, a finalidade de assar comida e fazer fumaça para atrair o resgate. No entanto, em dois momentos, o fogo foge ao controle dos meninos, provocando consequências. Assim, a fogueira representa o conhecimento que, se não for usado com sabedoria, pode levar a situações desastrosas.

Os óculos do Porquinho representam a habilidade de saber e entender as coisas com clareza. Por isso, Porquinho é o único que, embora seja desacreditado pelos demais, consegue perceber claramente como as coisas devem ser feitas. Desse modo, esse objeto é motivo de disputa entre os grupos. A partir da quebra de uma das lentes, os meninos passam a perder a “visão” do que é correto. Acredito que os óculos, assim como o próprio Porquinho, simbolizam a ciência que produz conhecimento, já que é com eles que as crianças produzem fogo.

O senhor das moscas simboliza o mal que existe dentro de todos nós. Além disso, é o símbolo do demônio. Isso porque, curiosamente, “senhor das moscas” é a tradução literal do hebreu para Belzebu, um dos três anjos caídos (juntamente com Lúcifer e Leviathan) e que representa o terceiro pecado capital, a gula.

Adaptações para o cinema

Existem duas adaptações desse livro para o cinema, uma de 1963 e uma de 1990. Eu não vi a primeira e só encontramos no youtube uma versão com legenda em espanhol, mas dizem que ela é a mais fiel à obra.

Na adaptação de 1990 (de onde eu tirei as imagem acima), os meninos são americanos e o piloto não morre, portanto há um adulto na ilha. Essas alterações, ao meu ver, comprometem bastante toda a simbologia que Golding quis transmitir.

Piquenique Literário

É fato que eu posso passar o dia escrevendo sobre o livro e, ainda assim, farei interpretações superficiais. A história é profunda e, como bem definiram os participantes do Piquenique Literário: é uma “obra aberta” e atemporal, ou seja, sua análise não cessa e, apesar de ter sido publicada em 1954, seu conteúdo pode ser aplicado a qualquer período da humanidade.

Porém, a discussão que aconteceu no nosso último encontro foi tão rica que, com certeza, muita gente saiu de lá compreendendo muito mais do que a obra, mas nossa sociedade, nossa história e até nossa política. (Portanto, participem do próximo, Brasil! Vamos exercitar essas cabeças pensantes e conhecer gente bacana! 🙂 )

E você, já pensou o que faria em uma sociedade sem lei e sem autoridade? Fica aí o questionamento – e a dica de leitura!

Taurina, jornalista, casada com o Xu e mãe de um poodle preto chamado Bruce (Wayne). Poderia viver eternamente de doces e livros.

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